We interrupt this broadcast for a first at The Sleepless Reader: a review in Portuguese! It’ll do me good to exercise writing in my native language.

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Adorei. Gargalhei. Às vezes esqueço-me como me posso divertir com literatura Portuguesa, especialmente com clássicos. Porque é que não se lê este nas escolas? Teria gostado muito mais do que d’O Amor de Perdicão (um par de tabefes bem dado aqui e ali…) ou do Aparição (simbolismo óbvio dá sempre cabo de mim).

As quatro grandes razões porque gostei tanto da Morgadinha: o humor, o retracto da vida (rural) portuguesa em meados do século XIX, a crítica social, e a heroína.

Nas primeiras páginas a linguagem é tão rebuscada que me preparei para outro A Casa Grande de Romarigães, que li com o dicionário à mão. Mas depois arranca o primeiro diálogo (neste caso um interno) e pareceu estar a ler um livro diferente.

Fiquei rendida, nem mesmo o uso aqui e ali de personagens-tipo e o sexismo rampante me estragou a festa. Claro que existe algum melodrama (é possivel evitá-lo em literatura desta altura?) mas a crítica social e política tornam tudo muito mais realista. Uma das minhas cenas favoritas foi a chegada do menino de cidade hipocondríaco a casa das suas primas na aldeia:

– Tu dizias-me na tua carta que estavas doente; pois olha que na cara não o parece.
– Não—concordou a criada—tem boas cores, e, vamos, a magreza ainda não é lá essas coisas.
Era este o ponto fraco de Henrique; respondeu logo ao reclamo.
– Não me digam isso ! Então não vêem como estou? Pois isto é lá cor de saúde? de febre, será. Gordo? pois acham-me gordo?!
– Gordo, não digo, mas assim, assim…

Foi um prazer ler sobre a vida da época, especialmente porque hoje em dia sei mais sobre história Inglesa e Americana que Portuguesa. Achei fascinante as cenas sobre o Natal, a comida, o beatismo, as eleições, as cunhas, etc. Quantas coisas mudam e quantas outras estão na mesma! Olhem esta citação:

O conselheiro partiu no dia seguinte para Lisboa, para tomar parte na pilotagem da nau do Estado. Estive tentado a dizer, para satisfação de ânimo dos meus leitores, que, sob a direção dos talentos e aptidões do novo estadista, se locupletou a Fazenda Pública, prosperou a agricultura e a indústria, refulgiram as artes e as letras; e que Portugal, como a Grécia, sob Péricles, causou o assombro das nações do Mundo.

Mas receei que, fantasiando no nosso país um governo fecundo e próspero, a inverosimilhança do facto prejudicasse no espírito dos leitores a dos outros episódios narrados, e lhes entrasse com isto a desconfiança no cronista. Resolvi, pois, ser franco, declarando que, sob a direção do conselheiro e dos seus colegas, Portugal regeu-se, como se tem regido sob as dúzias de ministérios, que nós todos havemos já conhecido.

Touché Sr. Dinis!

Sobre a personagem da Morgadinha: tem de ser uma das mulheres mais fortes da nossa literatura clássica, não? Uma heroína que se declarar-se ao herói é algo raro (não existente na literatura da epoca?)! Madalena é alguém que faz coisas aconteceram e não se limita a responder a acontecimentos. É forte (mental e fisicamente), decidida, inteligente, confiante, com sentido de humor, mas não deixa a impressão de ser irritantemente perfeita. Adoraria ler mais livros sobre nela.

Para o ano: As Pupilas do Senhor Reitor ou Os Fidalgos da Casa Mourisca?

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Outras opiniões: biblioteca intrasmíssivel, Tempo de Ler, Dos Nossos Livros, Viajante no Tempo (a tua?)

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